Eu nunca estive sozinha, Zé. Seria completamente cheia de ingratidão se eu abrisse a minha boca e dissesse: “eu não tenho ninguém” ou “eu estou sozinha, eu sempre me virei sozinha”, porque se a gente parar pra pensar e ver como foram os piores dias, sempre tivemos alguém nos curando dos dias ruins, mesmo indiretamente. Lembro quando eu disse pela primeira vez que não aguentava mais, e estava sozinha, eu tive alguém que não desistiu de mim, que todos os dias aparecia perguntando como eu estava, e quando não aparecia, estava ali pelos cantos me observando esperando o momento de adentrar. Lembro também de todas as vezes que coisas pequenas me fizeram sentir pelo menos um porcento de alívio: uma mensagem de bom dia cheia de corações amarelos, o link de uma música desconhecida que passou a ser uma das minhas preferidas, o latido e o rabinho descontrolado do meu cãozinho ao me ver, os lambeijos da minha gata, minha série preferida, o sorriso da minha avó, o carinho de pessoas que eu recebo diretamente e indiretamente, as figurinhas inusitadas do meu melhor amigo, os áudios infinitos da minha melhor amiga, a presença do cara que amo mesmo quando não tenho nada além de dor para oferecer… Sempre são pequenas coisas. E, Zé, às vezes a gente tá tão quebrado, que se recusa a ver que tem coisinhas boas nos cercando, tentando entrar, e são justamente essas coisas unidas com nossa força que nos permite seguir aqui, mesmo quando tudo parece dor, quando tudo parece escuridão, quando tudo tá meio perdido. Eu nunca estive sozinha, Zé.
As coisas nem sempre são claras, Zé.